O título desta postagem refere-se a algumas impressões que tenho a respeito do uso das tecnologias móveis no ensino superior; impressões que adquiri tanto como aluna (desde a graduação até agora no doutorado), como professora de ensino superior. Obviamente pela minha idade (faço 32 mês que vem! Dia 28 de maio, pra ser mais precisa e tô topando entre os presentes até injeção na testa, desde que me faça perder uns 3 kg semanalmente)... sim a idade... quase me perdia... obviamente pela minha idade não cheguei a usar a caneta tinteiro. Lembro-me que havia uma em minha casa quando era criança; meu pai estudava filosofia na Universidade Católica de Pernambuco e deveria achar chique levar essa caneta para a universidade.
Crédito da imagem: TojosanNa escola em que estudava, não me lembro de ver as professoras utilizando tal
artefato. A questão é que se não me lembro de alguma experiência escolar com essa tecnologia considerada em desuso, acompanhei a franca expansão do uso de celulares quando já era aluna do ensino superior. No primeiro período do curso de Pedagogia da
UFPE, tinha uma amiga
chiquérrérrima, a Vera, que era a única da sala que tinha celular. Quando aquele "bicho" tocava na bolsa de
Verinha era um
frissom, ela sacava da bolsa, abria o celular (do tipo
tijolão) e dizia
Alô! Todo mundo ficava em êxtase, até a professora. Sim, porque naquela época nem a professora
podia ter um celular daqueles! Hoje, as aulas, palestras e comunicações orais no meio
acadêmico, são regadas a toques em MP3,
bips de mensagem,
Alôs a torto e a direita,
blackbarriers,
bluetooth, infravermelho,
smartphone e etc. Os comunicadores móveis hoje são acrescentados de múltiplas funcionalidades, desde receber/fazer uma simples ligação
telefônica a
acessar o email,
msn, pagar contas, fazer investimentos, etc. Ouvi dizer que entre as funções futuras estão as de escova de dentes, alicate de unha, porta
batom e porta O.B. Legal
né, um canivete russo de última geração. A questão é como e até que ponto essas tecnologias móveis com múltiplas
funcões estão transformando as relações ensino-aprendizagem e permitindo maior
contato entre professores e alunos? Segundo a matéria
De mochila a laptop publicada na Revista Ensino Superior deste mês, essas tecnologias permitem a criação e estreitamento de vínculos entre professores e alunos. Segundo a matéria,
A chamada geração net e seu talento nato para a tecnologia modificaram de maneira irreversível os padrões de ensino. Computadores portáteis, celulares, telefones inteligentes, como iPhone e Blackberry, e redes de relacionamento disputam espaço cada vez maior com os métodos tradicionais de educação e já são um desafio para as instituições de ensino superior. Que é uma verdade que a chamada geração
net pode modificar os padrões de ensino, isso é. Contudo, não estou convencida de nossa adesão (nós, professores) às
TICs nos processos de ensino-aprendizagem. O que vejo - informalmente - é levarmos o
cotidiano das
TICs, ou seja, nossa vivência com os dispositivos tecnológicos para sala de aula. Eles vão em nossas bolsas, cabeças, modificam nosso comportamento em sala, nossa postura diante do
birô onde hoje fica o celular que, além de mostrar a hora, registra as chamadas não atendidas que
monitoramos vez ou outra para ver se alguém não ligou nos oferecendo a coordenação de um
projeto do governo federal, uma bolsa da
UAB. Porque hoje celular e seus derivados é
sinônimo de oportunidade, em muitos casos de oportunismo. Quem é o professor que já não atendeu uma ligação de celular com grande
afobação, disse que era uma urgência e conseguiu se livrar de alguma
pentelhação no trabalho????? Oh! Não
tô perguntando nada demais! É só uma questão do mesmo
top daquelas que nos fazem, ao perder o prazo de envio de um artigo ou capítulo de livro pra um congresso ou editora, entregar de K-Ô um
cd com o suposto texto gravado, sendo que nada há lá a não ser a intenção de enviá-lo no dia seguinte já pronto!!!??? Divaguei... voltando ao tema, penso que embora utilizemos as tecnologias móveis para nos comunicar com nossos colegas de trabalho e com os alunos, não significa que estão qualitativamente mudando os processos de aprendizagem, mas tão somente potencializando e ampliando o que tradicionalmente já acontece. Por exemplo, como trabalho em geral com os alunos
concluintes e coordeno
atividades do Trabalho de conclusão de curso desses alunos, quando faltam por volta de duas semanas para depositarem os
TCCs é um Deus nos acuda que abate meu celular! Entre
mensagems e ligações, acho que só ganham de mim as funerárias e
delegacias! Todo mundo quer saber se o trabalho é pro dia x mesmo, se não tem como adiar, como adiantar, se não pode se separar do colega que faz o
TCC porque entraram em crise, em fim, uma enxurrada de questões que, embora pedagógicas, são operacionais, não dizem respeito
diretamente à dimensão formativa, ao que valorizo como sendo de fato pedagógico, a produção de conhecimento. Aliás, isto, tenho a impressão, nada tem a ver com tecnologias móveis na prática pedagógica, por enquanto. Porém, esse
contato constante, quase privado, que o aluno estabelece comigo nos aproxima como pessoas, nos torna quase íntimos, o aluno de certo modo passa a participar da minha vida em outros espaços que não os
acadêmicos (e
vice-versa) e assim, nos conhecemos um pouco mais! Será que já podemos chamar nossa sociedade de pedagógica pelo fato de os
emails,
messengers, ligações de celular continuarem a nossas aulas,
expandairem as condições de troca e aprendizagem? Não tenho dúvida! Certamente não é agradável receber ligações a toda hora e em pleno domingo. Mas a questão de organizar o uso dessas tecnologias móveis possibilita que o ensino -
atividade fadada há tanto tempo à fixidez - se movimente, se desloque e se
instabilize, num bom sentido. Interessante é que estamos participando da produção de uma cultura que flexibiliza as condições de ensino-aprendizagem, transportando-as para tempos e espaços diversos . Com o uso das tecnologias móveis sendo utilizadas por exemplo para acesso aos ambientes virtuais de aprendizagem, a articulação entre educação presencial e a distância, tudo isso permite o desenvolvimento e inauguração de tendências e metodologias cada vez mais impulsionadoras da produção do conhecimento na perspectiva da colaboração. É preciso que além de os professores usarem os celulares para comunicar também conversem em sala de aula com os alunos sobre seu uso,
softwares que podem auxiliar na aprendizagem, além da
apropriação colaborada das múltiplas linguagens que se articulam nas tecnologias móveis. É o conhecimento dessas linguagens que vai permitir
articulação com a linguagem pedagógica. Segundo a Revista ensino superior,
"Embora muitos professores avaliem as redes como uma distração nas salas de aula, seu uso tem impacto no ensino e na aprendizagem. Os estudantes acessam as páginas para montar seus grupos de estudo, conversar sobre trabalhos e trocar informações com seus colegas de classe".
Essa reportagem fala do uso de tecnologias móveis nas universidades norte americanas. Apesar de ser outro o contexto, as questões que coloca são importantíssimas para pensarmos o uso (e o abuso!) das
TICs nas instituições educativas.
Revista Ensino Superior (edição
online):
http://revistaensinosuperior.uol.com.br/